Márcio Galvão - Research
Filosofia e Lógica
Esta página reúne artigos e pesquisas sobre:
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Filosofia da Lógica,
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Lógica (Cálculo de Predicados de Primeira Ordem e Lógica Proposicional),
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Ontologias de Domínio e Lógicas de Descrição,
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Filosofia da Linguagem,
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Filosofia da Arte,
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Epistemologia e Teorias do Conhecimento,
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Filosofia Moderna,
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Filosofia Medieval,
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Filosofia Antiga.
O encontro da Filosofia com a Inteligência Artificial, que ocorre no domínio da Ética, é discutido em ÉTICA DA IA.

Filosofia da Lógica
As figuras mostram a capa da Parte I da obra LOGICAL FORMS do Prof. Dr. Oswaldo Chateaubriand, com a dedicatória para o autor. A Parte I trata de "Verdade e Descrição", e a Parte 2 discute "Lógica, Linguagem e Conhecimento". Os dois volumes são de fundamental importância para os interessados em lógica e filosofia da lógica.



Artigo (PDF): Descrição, Identificação e Sentido
Márcio Galvão
Este trabalho traz um resumo das concepções de Frege e de Russell sobre as noções de sentido e da referência e seus respectivos tratamentos das descrições definidas. Em seguida, mostramos como o filósofo e lógico brasileiro Oswaldo Chateaubriand combina as noções de Frege e de Russell e formula algumas teses próprias, dentre as quais se destacam:
(i) A tese de que qualquer sentença pode ser analisada em uma forma sujeito-predicado.
(ii) A distinção entre as descrições definidas que aparecem na posição sujeito (termos descritivos) e na posição de predicado (predicados descritivos).
(iii) A noção de que os predicados são caracterizados por suas condições de aplicabilidade, e que denotam propriedades (entendidas em um sentido mais abrangente, incluindo relações).

Artigo (PDF): Lógicas (no Plural)
Márcio Galvão
If Pegasus does not exist, then there exists something that does not exist
van Fraassen
Uma lógica deve tratar de sentenças não declarativas, como as interrogativas e imperativas? Novos operadores não extensionais devem ser aceitos como parte da gramática, para possibilitar o tratamento de noções semânticas modais como "necessário", "possível", "obrigatório", "permitido"? E quanto ao tratamento formal das proposições envolvendo crenças, ou flexões temporais? Se há diferentes concepções filosóficas do que seja a verdade (como no caso dos intuicionistas), certos princípios clássicos serão rejeitados, e temos motivação para uma concepção alternativa do que a lógica deve ser. Se entendemos que a lógica pode conviver com contradições, já temos fundamentação filosófica para a criação de sistemas paraconsistentes. Se temos uma concepção diferente de como se deve justificar uma dedução, temos motivação para criar uma lógica da relevância. Se aceitamos que devem ser suportados outros valores de verdade além do verdadeiro e do falso, encontramos motivação para o surgimento de lógicas polivalentes, e assim por diante. Independente destas motivações, é filosoficamente interessante que a lógica se manifeste nesta pluralidade de sistemas - não há uma única lógica, e sim várias lógicas, e uma fórmula considerada verdadeira em um sistema e pode ser falsa em outros. Se há várias lógicas, pode-se questionar se há apenas uma lógica "correta", ou se muitas podem ser "corretas" em seus domínios (a validade da lógica é universal ou local?). O que é uma lógica "correta"? Pode-se interpretar que exista apenas uma lógica, mas várias aplicações da lógica? Diante de tantas questões relevantes, só é seguro concluir que ainda há muito a se pesquisar sobre o tema. Este assunto me interessou e pesquisei um pouco sobre ele no excelente livro de Susan Haack (cujo título já é provocativo - Filosofia das Lógicas - e em outras referências.

Artigo (PDF): Verdade e Correspondência
Márcio Galvão
Uma investigação sobre os diferentes significados de "verdade" no âmbito da lógica, divida em três partes.
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Na parte I apresentamos algumas teorias sobre a natureza da verdade, investigando suas principais características e também algumas das objeções que são dirigidas a cada uma delas. Começaremos pela teoria da verdade como correspondência, representada inicialmente pela formulação de Russell na sua teoria de fatos. Em seguida, abordaremos resumidamente a teoria da verdade como coerência, as teorias pragmatistas da verdade, a teoria semântica de Tarski e finalmente as chamadas teorias deflacionistas, como a teoria da redundância (Ramsey), a teoria performativa (Strawson) e a teoria minimalista (Horwich).
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Na Parte II, apresentamos a teoria correspondencialista da verdade como identificação, onde a correspondência é entendida como uma relação onde os portadores identificam fatos ou estados de coisas.
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Na Parte III, investigamos as refutações apresentadas por Chateaubriand para os chamados argumentos slingshot, que defendem a estranha tese de Frege de que, se as sentenças denotam alguma coisa, então os referentes das sentenças são os seus valores de verdade, tese que é obviamente incompatível com as teorias correspondencialistas da verdade baseadas em fatos,. Após uma breve apresentação das formulações do slingshot por Church, Davidson e Gödel, mostraremos como Chateaubriand demonstra o caráter falacioso de tais argumentos.

Artigo (PDF): Sobre os infinitos
Márcio Galvão
O gênio de Cantor nos legou uma das mais belas criações da mente humana - a Teoria dos Conjuntos, Cantor nos ensinou que há infinitos que têm o mesmo tamanho. Estes são os conjuntos infinitos enumeráveis, aqueles cujos elementos podem ser listados de alguma maneira e colocados em uma correspondência biunívoca com o conjunto N dos números naturais. Por exemplo, o conjunto N dos números naturais {0, 1, 2, 3, 4, 5...} tem a mesma cardinalidade do conjunto dos números pares, que é um subconjunto de N!. Ambos são infinitos, e os números pares estão contidos nos números naturais, entretanto Cantor provou que “estes infinitos são do mesmo tamanho”, pois possuem a mesma cardinalidade. Quando se lida com infinitos, o todo pode ser do mesmo tamanho que as partes. Porém, Cantor descobriu também (e provou, em 1891, pelo “argumento da diagonalização”) que há conjuntos infinitos que não são enumeráveis (isto é, não podem ser mapeados em correspondência um para um com os números naturais). Um exemplo é o conjunto R dos números reais. Números reais podem ser representados por decimais infinitos, como raiz de dois (= 1,4142...) ou PI (= 3,14159...). Ocorre que não é possível enumerar o conjunto R - não há como fazer correspondência um-para-um entre cada número real e cada número natural. Assim, Cantor concluiu que R tem cardinalidade maior que N, ou seja, há mais números reais do que números naturais. Ou seja, há infinitos maiores do que outros.
Neste pequeno artigo, é mencionada (de forma introdutória) a famosa Hipótese do Contínuo de Cantor, que diz que entre os cardinais transfinitos 0א (alef- zero) - que mede o tamanho do infinito dos números naturais N) e 1א (alef-um) - que mede o tamanho do infinito dos números reais R), não existe nenhum outro cardinal transfinito. Ou seja, não há outros cardinais entre 0א e 1א. Assim, há conjuntos infinitos com tamanho 0א, e há outros conjuntos infinitos maiores que têm tamanho 1א, mas não há outros infinitos de tamanho intermediário. Pelo que se sabe, graças aos trabalhos combinados de dois outros gênios - Kurt Gödel e Paul Cohen - a hipótese de Cantor é logicamente indecidível (isto é, não se pode provar que é verdadeira, e nem que é falsa). Aceitar a hipótese como verdadeira não gera contradições matemáticas (se gerasse, ela poderia ser provada como falsa), mas rejeitar a hipótese também não gera contradições.
Lógica

Trabalho (PDF): Resolução de todos os exercícios do livro "Introdução à Lógica" do Prof. Dr. Cezar A. Mortari
Márcio Galvão
Este documento contém as minhas propostas de soluções para todos os exercícios dos Capítulos 1 até 16 do livro "Introdução à Lógica" do Professor Dr. Cezar Mortari (Mortari 2001), primeira edição. Esperamos que o conteúdo aqui apresentado possa ter utilidade para os alunos dos cursos de lógica clássica onde o livro é adotado, bem como para outros interessados no tema.
O livro do prof. Mortari é uma excelente introdução à lógica clássica e tem, entre outros, o grande mérito de transformar um tema normalmente árido para os iniciantes em uma leitura agradável. Os enunciados dos exercícios aqui reunidos são parte integrante da primeira edição do texto de (Mortari 2001) e portanto são de popriedade intelectual do professor Cezar A. Mortari. Alguns exercícios têm solução única (por exemplo, a construção de tabelas de verdade). Porém, há outros (como a tradução de sentenças da linguagem natural para a linguagem do CQC) que podem admitir outras respostas possíveis além das sugeridas neste documento.
Imagem capturada do texto



Artigo (PDF): Introdução ao Cálculo Proposicional
Márcio Galvão
Este documento apresenta algumas noções fundamentais da lógica das proposições. O material é de nível introdutório, sendo destinado aos leitores que não tiveram nenhum contato prévio com o assunto. Por este motivo, em muitas passagens, o formalismo e o rigor normalmente utilizados nos textos sobre lógica cederam lugar a uma exposição mais intuitiva, para que uma maior audiência pudesse ser alcançada.
Imagem capturada do texto


Artigo (PDF): Operadores Lógicos e Linguagem Natural
Márcio Galvão
Você sabia que a proposição condicional "Se as girafas podem voar então o Sol não é uma estrela" é logicamente verdadeira? O antecedente é falso e o consequente também é falso, e assim o resultado do operador condicional é verdadeiro. Isso nos parece estranho pois pensamos no operador "se,,, então" da lógica como se fosse uma implicação material, no sentido do "se... então" em Português, mas em lógica o operador condicional tem um sentido diferente - ele é um preservador de verdade, e só será falso se o antecedente for verdadeiro e o consequente for falso (neste caso a verdade não foi preservada). Como neste exemplo o antecedente "girafas podem voar" é falso, não ha verdade a ser preservada, logo o operador condicional retorna V independentemente do consequente ser verdadeiro ou falso (como é o caso, pois o Sol é uma estrela).
Este artigo discute o significado dos operadores lógicos utilizados no cálculo proposicional, deixando de lado os operadores existencial e universal do cálculo de predicados de primeira ordem. Este entendimento é útil para a compreensão da validade de certas formas de argumentação que utilizam proposições compostas criadas com ajuda destes operadores (por exemplo, as formas Modus Ponens e Modus Tollens).

Este artigo discute a noção de "argumento válido". O texto é destinado aos leitores que não tiveram nenhum contato prévio com o assunto. Por este motivo, o formalismo e o rigor normalmente utilizados nos textos sobre lógica aqui cedem lugar a uma exposição mais intuitiva.

No artigo "Argumentos válidos e inválidos"foi apresentada uma definição informal do que seria um "argumento válido". Neste artigo, vamos discutir as noções de interpretação, modelo e consequência lógica. De posse destas definições, será possível apresentar uma definição formal de "argumento válido", ou com forma lógica válida.

Artigo (PDF): Sobre Ontologias e Lógica de Descrição
Márcio Galvão
Este texto discute como as linguagens de MARKUP atualmente disponíveis podem usar ontologias para buscar o significado de termos de um determinado domínio (por exemplo, "Governança, Riscos e Compliance"). Ontologias podem ser criadas e publicadas na Internet, por exemplo, em linguagem OWL (Ontology Web Language). A Figura mostra uma ontologia de exemplo em OWL criada com o editor Protégé, da Universidade de Stanford.
Por sua vez, uma Lógica de Descrição (DL - Description Logic) possibilita uma representação formal do conhecimento (conceitos) das ontologias, e torna possível o emprego de reasoning ou inferência, que ajuda na manutenção da própria ontologia evitando inconsistências. Sobre a "Web Semântica", seu propósito é tornar o conhecimento do domínio "inteligível para aplicações", melhorando a experiência humana. Este é certamente um assunto muito amplo e complexo para ser coberto aqui em detalhes, envolve uma mistura de siglas representando diversos padrões e formatos de dados web (XML, RDF, etc) e siglas representanto linguagens (DAML+OIL, OWL etc.), termos relacionados com web services (WSDL, UDDI, SOAP etc), termos relacionados com padrões de segurança (XML Encryption, XML Signature, SAML, WS Security, etc). A representação de conhecimento conceitual através de ontologias de domínio é um campo complexo e que se relaciona com a inteligência artificial (IA), com o processamento da linguagem natural (NLP), com a linguística, a lógica, a engenharia de software e outras áreas. A maioria dos projetos neste campo são acadêmicos e ainda estão em prova de conceito, e assunto ainda vai evoluir muito nos próximo anos.
Imagem: Tela do Protégé Ontology Editor, Stanford University

Filosofia da Arte

Problematizando a ideia de "arte"
A ideia de "obra de arte" como um produto humano criado especificamente para ser contemplado em função de suas qualidades estéticas é investigada por Larry Shiner em seu livro "The Invention of Art: A Cultural History". Para este autor, esta concepção moderna de "arte" como produto para contemplação teve sua certidão de nascimento com o Renascimento, e foi consolidada com o Iluminismo (século XVIII). Esta perspectiva da "arte como uma invenção do século XVIII" começou a ser desenvolvida pelo autor após algumas experiências pessoais, Shiner havia visto máscaras, roupas, ferramentas, tigelas e outros artefatos criados por índios da África, América e Oceania em um museu de História Natural. Alguns anos depois, ele percebeu que alguns dos artefatos africanos haviam sido transferidos do museu de História Natural para um museu de ... "Arte Moderna" (The Art Institute of Chicago). Na ocasião, Shiner não estranhou de imediato a transformação de um artefato indígena original em "arte", até o dia em que, em uma aula de antropologia, um professor mencionou que não só não existia uma palavra específica para "arte" em muitas línguas africanas, como as máscaras (e outros objetos de poder) eram utilizadas apenas em rituais religiosos e não permaneciam em "exibição" permanente - tais artefatos eram mantidos guardados até o momento em que precisavam ser utilizados. Assim, a ideia de "arte" pareceu problemática, e onde há problematização, há espaço para filosofia, e assim Shiner apresenta sua interessante tese: "O moderno sistema de arte não é uma essência ou um fato, mas algo que nós inventamos. A arte, entendida de maneira geral, é uma invenção europeia que tem apenas duzentos anos de idade".

Filosofia da Linguagem

A questão da possibilidade de uma "análise pragmática" da linguagem foi colocada (e respondida negativamente) por Carnap. Para este filósofo, enquanto nos domínios da sintaxe e a semântica seria possível uma análise teórica e sistemática da linguagem, o mesmo não se daria na pragmática, em função da imensa diversidade de usos e variações de contexto associadas ao uso concreto da linguagem. A partir da segunda metade do século XX surgem algumas tentativas de respostas positivas para o problema colocado por Carnap, inicialmente com o "segundo" Wittgenstein ("jogos de linguagem", noção de significado associado ao uso da linguagem) e em seguida com J. L. Austin e sua teoria dos Atos de Fala ("How do to things with words"). Austin apresenta vários exemplos onde palavras podem executar atos, e portanto, alterar a realidade, em vez de apenas descrevê-la:
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"Aceito esta mulher como minha legítima esposa."
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"Batizo este navio com o nome de Rainha Elizabeth".
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"Condeno o réu a 10 anos de prisão",
Outros personagens importantes nesta investigação são J.R. Searle e, sobretudo, H. P. Grice, que em "Lógica e Conversação" sugere um método cuja força está justamente na reconstrução dos elementos implícitos e usos indiretos da linguagem, que são "geradores de significado", e que estão fora do alcance de qualquer análise puramente semântica ou sintática, já que estes elementos estão ocultos (não explícitos no discurso). O método sugerido por Grice permite, sob certas condições, recuperar as intenções do falante, tornando passível de estudo a parte não literal da comunicação. Trata-se de uma proposta pragmática, na medida em que está comprometida com o uso da linguagem, e onde o recurso ao contexto é fundamental.
Epistemologia e Teorias do Conhecimento

Eu não creio em crenças.
Karl Popper.
Este trabalho apresenta uma análise simplificada do capítulo 1 ("Conhecimento Conjectural: Minha Solução do Problema da Indução") do livro "Conhecimento Objetivo", de Sir Karl Raimund Popper (1902 - 1994), um dos mais influentes filósofos do século XX. O capítulo é iniciado com uma apresentação dos chamados "problemas da indução", tais como colocados inicialmente pelo filósofo empirista David Hume (1711-1776). Em seguida, Popper apresenta a sua abordagem sobre a questão e expõe suas propostas de solução para estes problemas. Figura controversa, Popper nos deixou legados importantes, tais como a compreensão de que todo conhecimento científico é hipotético.
Filosofia Moderna

Artigo (PDF): O Mundo é a Nossa Representação
Márcio Galvão
O mundo é a nossa representação mental do mundo. Isso nos ensinou Kant, e Schopenhauer foi um grande estudioso da obra de Kant. As percepções que temos de qualquer coisa são, obrigatoriamente, fruto da nossa representação mental desta coisa. A coisa em si, como diria Kant, o que uma coisa é em essência, está fora do nosso alcance. É triste, mas é verdade. Jamais saberemos o que as coisas realmente são, em essência. Ao pegar uma maçã, olhar para ela, sentir sua textura, cheiro, cor, peso, e pensar 'tenho uma maçã em minha mão', temos uma representação, feita por nosso cérebro, daquele objeto. O que aquilo é em essência, isto é, fora da nossa representação, não temos a menor ideia, e jamais teremos. As maçãs (e todas as outras coisas) existem independentemente de nosso pensamento (o Universo é mais antigo que o homem), mas Kant nos ensinou que só temos acesso aos fenômenos, ou seja, as nossas próprias representações mentais do mundo e do que nele achamos que existe. Quando fazemos estas representações dos objetos do mundo, a "coisa em si" se transforma em uma "coisa para nós", e o mundo inteiro, enquanto "coisa em si", se transforma em um "mundo para nós". Note que além de representar o mundo, nós também representamos a nós mesmos. Cada um de nós tem uma representação mental de si mesmo, assim como das outras coisas do mundo.
Para Schopenhauer, o mundo tem, digamos, uma essência única, ou seja, há uma única coisa em si, que ele denomina vontade (wille, em alemão). A palavra não é boa, pois 'vontade' nos faz pensar em vontade de alguém, ou seja, algo antropomórfico, relacionado ao homem. Mas o termo não tem nada a ver com propósito, objetivo ou finalidade. Este tipo de vontade (eu quero alguma coisa) é também uma representação, pois quem quer, quer alguma coisa, e assim já estamos objetivando ou representando algum objeto. A vontade em Schopenhauer é um conceito bem mais sofisticado, é um impulso primário e vital, é algo como um princípio fundamental da natureza, que está na base de todas as forças e todos os fenômenos que nós, humanos, conseguimos representar. A compreensão de que o mundo é nossa representação pode servir como um alívio para os que tanto temem a morte, pois muitos têm medo de morrer pois sentem que vão partir em definitivo de um mundo que fica. Mas, na verdade, quando partimos, é o nosso mundo (a nossa representação do mundo "real" ) que desaparece, enquanto nós retornamos para a essência única das coisas, que, segundo o grande filósofo alemão, é a vontade.
Filosofia Medieval

Artigo (PDF): O Problema dos Universais
Márcio Galvão
O problema dos universais, em seu aspecto ontológico, diz respeito à existência das categorias ou predicados. Terá a "brancura" uma existência de modo independente dos objetos que predicamos como "brancos"? Na versão Platônica do realismo, a "brancura" poderia ser considerada uma Forma com existência autônoma, embora em uma realidade separada. Já Aristóteles confere aos universais um papel apenas predicativo (uso do verbo "ser" como ligação entre sujeito e predicado). Para ele, o "ser", aquilo que realmente é (tò on), é a substância individual real, material, o substrato, que existe de forma independente da nossa possibilidade de conhecê-lo. Já as categorias seriam modos de estruturação da realidade e não teriam existência autônoma (realismo aristotélico). A partir do realismo aristotélico foram desenvolvidas na Idade Média várias outras abordagens para a questão dos universais, como o nominalismo, que afirma que os universais são meros nomes (entidades linguísticas), e o conceitualismo, que afirma que os universais são conceitos (entidades mentais). Há no problema dos universais um importante componente ontológico. Porém, um outro aspecto importantíssimo é a questão epistêmica. Trata-se da questão não da existência do ser, mas da possibilidade do conhecimento (ou do nosso acesso) ao ser. Dentre todas estas posições filosóficas sobre a questão dos universais, a posição que julgamos mais persuasiva é a de Pedro Abelardo: os universais não têm existência ontológica própria, mas pode-se dizer que "existem" em nosso intelecto, como resultado do processo de se atribuir significado ao que é abstraído dos singulares (intelecção). Quanto à importância do problema dos universais, a relevância do assunto pode ser atestada por sua longevidade (tão antigo quanto a própria filosofia) e pela quantidade (e pela qualidade) de pensadores que se dedicaram ao tema, incluindo alguns dos maiores filósofos de todos os tempos. Vale ressaltar que a questão dos universais permanece em aberto até hoje, após mais de 2.000 anos de discussões (como toda boa questão filosófica).
Filosofia Antiga

Artigo (PDF): Sobre a Dialética Socrática
Márcio Galvão
Em 399 a.C, Sócrates foi julgado, condenado e executado, acusado de "introduzir divindades novas e corromper os jovens com seus ensinamentos" (RUSSELL 1967, 100). Mesmo diante da certeza da condenação, tal como descrito na Apologia por Platão, Sócrates recusou-se "a aceitar o perdão ao custo de negar a busca da sabedoria". Em um certo sentido, Sócrates foi realmente culpado de corromper os jovens, ao incentivá-los a questionar, a não obedecer cegamente à autoridade e a não ceder sem reflexão aos ditos dos costumes. Sobretudo, ensinou que o discurso sofístico poder ser falso: a linguagem pode estar desvinculada do ser.
Ao buscar uma definição kata holon ("segundo o todo"), pode-se dizer que Sócrates procurava o eidos, aquilo que está "presente em todos os sujeitos", o que é "comum a todas as coisas que têm aquele nome". Ele levantou a questão da definição com uma exigência fundamental: ao dizer o que alguma coisa é, temos que responder por todos os casos possíveis desta coisa. Ele inicia assm o que seria conhecido como o "problema dos universais", que Platão tentará responder com a sua Teoria das Idéias.
Este artigo apresenta uma visão geral da dialética socrática, que pode ser caracterizada como um método de discussão baseado em perguntas e respostas entre dois ou mais interlocutores. Ou seja, trata-se de um diálogo, como o próprio nome indica. Com relação aos participantes do jogo dialético, Sócrates dialogava com qualquer pessoa que demonstrasse interesse em fazê-lo. Das características do método dialético, talvez a mais importante seja a do caráter positivo e purificador da aporia. Ao tornar seus interlocutores conscientes da própria ignorância, ao libertá-los da ilusão de pensar que sabiam o que estavam dizendo, Sócrates lhes dá o benefício da possibilidade de buscar o verdadeiro conhecimento. Pois, ainda que possa ser irritante para alguns, é justamente a percepção da própria ignorância que abre o caminho para que as questões antes julgadas conhecidas possam ser efetivamente examinadas. E isso tem um valor inestimável, pois, como o próprio Sócrates nos ensinou, "uma vida não examinada não vale a pena ser vivida" (Teeteto, 187c).
Veja também